A busca por legitimação

Os efeitos da invisibilidade bissexual e a importância de respeitar e fortalecer as relações monodissidentes

Por Adriana Roque

 

Julinéia Soares atua como psicóloga e psicanalista.

No campo da sexualidade, uma orientação sexual invisibilizada é aquela que não cede à norma imposta e é submetida a manobras que buscam dizimá-la. A invisibilidade só existe como tentativa de desnaturalizar as vivências de afeto plurais, entre elas a bissexualidade.

É impossível dizer sobre nós, bissexuais, sem dizer da estrutura heteronormativa da qual estamos inseridas, como retrata a psicóloga e psicanalista Julinéia Soares. “A heteronormatividade representa um dos principais eixos de organização da nossa sociedade atual e ela se apresenta de forma muito imponente diante de qualquer sinal de bissexualidade, seja para exterminá-la ou escondê-la.” 

A bissexualidade tem uma força importante para o questionamento da heteronormatividade e do monossexismo.

Se o plano patriarcal é enfraquecer quem somos, o exercício que podemos  fazer é o de fortalecer nossas experiências, com intuito de refletir sobre a lógica binária de afeto. Segundo Julineia, a bissexualidade tem uma força importante para o questionamento da heteronormatividade e do monossexismo, pois repensa a lógica normativa e, por isso, muitas vezes não é compreendida e, portanto, invisibilizada. 

Fernanda Polse revisitou a própria história para compreender que “sempre foi bi”

Naturalizar nossas vivências e descobertas é necessário, pois somos atravessadas por estereótipos, entre eles o de “ser só uma fase”, capaz de interferir nas relações. “Existe uma falta de confiança, como se fossemos desejar todo mundo. É o famoso ‘joga para os dois lados’. Isso gera muita desconfiança entre casais”, esclarece Fernanda Polse, 32 anos, artista, comunicadora, coordenadora geral e diretora artística da Truck do Desejo, bloco de carnaval formado por mulheres lésbicas e bissexuais de Belo Horizonte.

A dentista Paula Ditho, de 29 anos,  comenta sobre a invisibilidade sofridas a partir  de falas como “Você não acha que isso é estar em cima do muro?” ou “isso é sem vergonhice” e avalia que com tais falas é quase impossível não se sentir errada sobre a própria orientação sexual.

Manuela Matias avalia que a falta de representatividade dificulta a descoberta da bissexualidade.

Outros dois estereótipos sobre pessoas bi vem da ideia de estar em transição em direção à heterossexulidadae ou à homossexualidade, e,  principalmente  a hipersexualização dos corpos das mulheres bissexuais, como reflete Manuela Matias, artista visual, de 27 anos. “Já tive experiências de hipersexualização, majoritariamente com homens cis, e também fui considerada uma pessoa em transição para a homossexualidade por mais de uma mulher lésbica”, comenta. Manuela avalia também que a falta de representatividade em séries, filmes, produções artísticas, livros, espaços políticos e na mídia dificulta a descoberta da bissexualidade.

As mulheres são colocadas num lugar de subalternidade, em que é negada a condição de sujeito de direito e de sujeito de desejo.

Para a Julinéia, há ainda um peso maior quando a bissexualidade é sobre o corpo de mulheres, pois as mulheres são colocadas num lugar de subalternidade, em que é negada a condição de sujeito de direito e de sujeito de desejo. Neste sentindo, às vezes, é necessário um processo de psicoterapia para que a mulher bissexual compreenda-se como mulher desejante, autônoma e independente e confortável com a sua orientação sexual. 

Com tanta invisibilidade, Paula Ditho  quase se sentiu errada sobre a própria orientação sexual.

Fernanda Polse e Paula Ditho relembram que passaram pelo processo de psicoterapia para compreender seus afetos. Fernanda teve um relacionamento de seis anos e quando iniciou em um relacionamento com outra mulher, pensou ter “virado lésbica” e conta como foi importante revisitar a própria história para compreender que “sempre foi bi”. “Foi libertador, porque eu parei de achar que tinha algo errado e me senti livre para me relacionar com quem eu quisesse”. Já para a Paula Ditho, o processo de psicoterapia contribuiu para compreender tanto as questões raciais quanto entender que seu desejo não era “errado”.

O que queremos? 

  • Uma escuta mais respeitosa das nossas pautas dentro da comunidade LGBTQIA+;
  • Visibilização das pautas raciais e lugar de fala de bissexuais negras(os) (es);
  • Confiança: não é porque uma pessoa é bi que ela vai projetar o desejo dela em qualquer ser;
  • Parem de nos fetichizar: não é porque sou bi e estou em um relacionamento com alguém que eu estou automaticamente sentindo falta do gênero oposto;
  • Ser entendidas e respeitadas como somos;
  • Criar e fortalecer espaços políticos.