Afeto para quem?

Um olhar decolonial para pensar as nossas construções afetivas

Por Jamine Miranda e Roberta Nunes

Compreender “o que é afeto” e como ele atravessa diferentes corpos não é uma tarefa simples. Afinal, sentimos o afeto de formas distintas e, além disso, culturalmente alguns corpos “merecem” mais afeto que outros. Que corpos são esses?

O modelo de sociedade que conhecemos no Brasil foi construído baseando-se em modelos patriarcais e escravocratas, que dividiam as mulheres entre brancas para casar e negras para transar. 

Sofremos um processo de exploração devastador em que indígenas foram expulsos de suas terras e os povos africanos dizimados, vendidos como mercadorias no lucrativo tráfico negreiro. 

Mulheres, casamentos e família

Quem nunca escutou que existe “mulher para casar” e “mulher para curtir”? Gerações foram criadas no modelo “casar e constituir família”, não importava se existia afeto ou não. O gostar era uma construção posterior ao casamento: primeiro, garantia-se o matrimônio para depois construir laços afetivos.

Como mulheres lésbicas, bissexuais, gordas, indígenas, com deficiência, pretas caminhoneiras e trans vão compreender o afeto?

O casamento era essencial para assegurar a manutenção dos bens da família e para publicamente demonstrar a honra de uma mulher. O homem tornava-se o centro do núcleo familiar, a Igreja Católica precisava oficializar a relação e a honra da mulher deveria ser controlada.

Foi numa sociedade fundamentada na religião, na misoginia, no racismo e no sexismo que as noções de união, afeto e cuidado se consolidaram. É abstrato compreender o que é afeto, quando estamos num meio que propaga discurso de ódio sobre mulheres e que sistematicamente nega afeto para esses corpos.

Agora, imagine como mulheres lésbicas, bissexuais, gordas, indígenas, com deficiência, pretas caminhoneiras e trans vão compreender o afeto? 

“A colonização não permitiu que nós, pessoas negras, pudéssemos, primeiro, nos amar. Se o mundo fala que não é bonito, inteligente, interessante, como vamos construir essa visão positiva de nós mesmas? É uma construção de auto-ódio, autonegação e não identificação, que começa a separar você de você mesma”, enfatiza a poeta, cientista social e pesquisadora, Juliana Tolentino, 28. 

Heliana Hemetério, 67, historiadora, pós-graduada em gênero e raça, e articuladora da Candaces – Rede Nacional de Lésbicas e Bissexuais Negras Feministas Autônomas, orienta a discussão: “somos negros diaspóricos e temos que olhar essa construção e entender o que a colonização fez com a gente e o que eu posso resgatar. Trazendo pro lado da lesbianidade, é: como eu vou me decolonizar da heteronormatividade? Como criar uma linha de autoestima que me dê uma identidade e faça com que eu não me sinta uma pessoa inferior?”, questiona.

Quais corpos cabem?

A colonialidade opera também por meio de CIStemas com relações de poderes nas quais a cisgeneridade é a norma. Joana Santos, 44, é mãe, poeta, modelo e terapeuta ayurveda. Após um casamento de dez anos, se assumiu como a mulher transgênero sapatão que sempre foi. Entre o que foi retirado dela por isso, está a possibilidade de exercer a maternidade. “Eu não tenho conseguido ser uma das partes mais importantes de mim, que é ser mãe. É doloroso ter perdido a mulher que eu amava, a minha família. A afetividade é negada para mulheres trans”, conta.

Para a fotógrafa e artista, Milena Paulina, 25, essa colonialidade permeia como o corpo gordo é percebido como indesejável e posto como intocável, principalmente com mulheres pretas e mulheres que não performam feminilidade. “Quanto mais a gente se conhece, menos a gente deixa que isso machuque. Tipo, estar com uma pessoa e ela tomar conta da sua alimentação ou palpitar no seu corpo”, ressalta. 

A insubmissão contra a dominação e violência é a estratégia que a multiartista e pesquisadora Sanara Rocha, 35, estabeleceu para si. Ela também vê cada encontro como um convite para se revisitar. “Eu sou muito sensibilizada com os afetos, por isso busco fazer pontes. Se uma mulher se diz incomodada em como a sociedade a enquadra, isso precisa se transformar num problema do coletivo, não só dela”, conclui. 

A necessidade da comunidade LBT entender que não existe só uma forma de ser é abordada por Júlia Aquino, 23, a Xu, estudante de psicologia e criadora do @militapcd. “Muita gente julga tudo de acordo com suas experiências. Quando falam sobre relações sexuais, por exemplo, ainda têm um discurso que não coloca a questão racial e o corpo não padrão. Já somos criadas pensando que ser lésbica é errado. Quando se é uma pessoa com deficiência, não se é nada porque ninguém considera”, comenta. 

A colonialidade estabelece um padrão de poder em uma hierarquização e dominação dentro de um universo de representações enraizadas como o racismo, antes de tudo, a LBTfobia, a cis heteronormatividade, o capacitismo e a gordofobia. Juliana, Heliana, Joana, Milena, Sanara e Júlia propuseram alguns caminhos.

Caminhos possíveis

“Para fazer essa transformação, a gente tem que começar conosco e se libertar da colonização, das amarras e ideias preconceituosas e estigmatizantes”. 

 Joana Santos é mãe, poeta, modelo e terapeuta ayurveda.

Foto: arquivo

“É preciso tomar cuidado para não se punir, porque o sistema colonial quer isso. Se você não se ama, te culpa; se você consegue se amar e se colocar nas suas relações, sente culpa”.

Juliana Tolentino  é poeta, cientista social, pesquisadora e educadora.

Foto: Sara Fonseca

“Não dedique afeto só a relações românticas. É saber que vale abraçar, dar carinho, verbalizar, construir afeto não só com quem a gente faz sexo”.

Milena Paulina é fotógrafa e artista ,e é criadora do projeto “Eu, gorda”, que já retratou mais de 300 mulheres gordas no Brasil.

Foto: Milena Paulina

“A gente lê demais, cita muito, gosta de arrotar as referências pretas, sapatonas, transgêneros, mas na hora que vai para a prática pode acabar oprimindo quem está ao lado”.

Sanara é bacharel em Artes Cênicas (ETUFBA), mestre em Cultura e Sociedade (POSCULT/ UFBA) e multiartista.

Foto: Adeloyá Magnoni

“Questione se você conhece pessoas com deficiência. Eu faço essa pergunta e a resposta é sempre não. Comece a se perguntar o porquê. Na internet, você segue um monte de pessoas com deficiência, mas chega numa balada e nem olha?”. 

Na falta de representatividade, Júlia  Aquino criou o @militapcd e construiu seu espaço para ser a mulher que quiser: propositiva, que gosta de rosa, maquiagem, culinária e música.

Foto: arquivo

“Não sofram por serem lesbofóbicas, bifóbicas, transfóbicas e racistas. Tenham vergonha de não pensarem porque são. Quando forem falar da construção de uma sociedade igualitária para as mulheres, pensem em quais mulheres você deixa de fora”.

Heliana Hemetério