Agosto das Lésbicas

Visibilidade e orgulho marcam o mês e dão espaço para debates e reflexões

Por Vanessa Perroni

Para muitas pessoas, o dia 29 de agosto é apenas mais uma data no calendário, mas para a comunidade lésbica é um dia – e um mês – para celebrar as várias lutas contra as agressões e invisibilidade sofrida por mulheres lésbicas no Brasil. O dia também abre espaço para debates e reflexões sobres as vivências plurais de mulheres, dando ênfase a temas como saúde, política, direitos sociais, família, cultura e diversas questões que atravessam o cotidiano e a vida de mulheres lésbicas.

Essa data marca as estratégias de combate ao patriarcado, à heterossexualidade compulsória, ao racismo, à lesbofobia e a invisibilidade das mulheres lésbicas.

A data faz referência ao primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), que ocorreu em 1996, no Rio de Janeiro. O encontro pautou a violação de direitos humanos sofrida por mulheres lésbicas. O movimento de lésbicas feministas no Brasil já existia há quase 17 anos, e ainda se fazia urgente a criação de um espaço próprio, e de abrangência nacional, para repensar suas questões enquanto individualidades. O fórum promoveu a junção política e de deliberação do movimento de lésbicas e bissexuais, que contou com a participação de 100 mulheres. Dentre as deliberações, o dia 29 de agosto passou a ser o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Para  Silvani Valetim, professora do departamento de educação do CEFET – MG, onde atua no CGRAI – Coordenadoria de gênero, raça, ações afirmativas e identidades essa data marca as estratégias de combate ao patriarcado, à heterossexualidade compulsória, ao racismo, à lesbofobia e a invisibilidade das mulheres lésbicas.  Agosto tem uma dimensão política, cultural e social. “Esse é um momento para dar voz às mulheres e suas identidades. Eu não estava no Brasil em 1996, mas quando teve o seminário eu fiquei muito feliz, por tudo o que representava na época, e ainda dialogava com o que estava ocorrendo em outros países. Essa data nasceu com a possibilidade de ecoar reivindicações”, rememora.

A história e o orgulho Lésbico

Apesar da data do evento, o movimento no Brasil teve início muito antes, em 1979, com o surgimento do Grupo Lésbico-Feminista, ou apenas LF, em São Paulo, que trazia um posicionamento político de independência frente à centralização do poder masculino. Em 1980, importantes pioneiras do movimento, como Rosely Roth e Míriam Martinho, criaram o Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF), que se articulava dentro do gueto de lésbicas vendendo boletins, panfletava folhetos de conscientização sobre discriminação e violência contra as lésbicas e divulgava as atividades do grupo. O coletivo atuou fortemente contra a onda de prisões arbitrárias, de torturas e de extorsão durante a Ditadura Militar.

Queríamos segurar na mão das nossas companheiras na rua, nos bares, mas sempre passávamos por constrangimentos

Além disso, as lésbicas do Galf criaram a revista “ChanaComChana”, em 1981, e sofreram duras críticas do regime. Elas vendiam a publicação no Ferro’s Bar, no centro de São Paulo, mas foram expulsas e proibidas de entrar naquele local, que era um dos lugares de sociabilidade mais frequentados pelas lésbicas na noite da cidade. No dia 19 de agosto de 1983, com articulação de Rosely Roth, o coletivo promoveu uma ocupação no espaço. O acontecimento foi um marco para o movimento e se tornou o Dia do Orgulho Lésbico.

Silvani recorda que nessa época existiam rodas de conversa em Belo Horizonte, onde as mulheres lésbicas falavam do desejo de sair do espaço privado e ocupar os locais públicos da cidade. “Queríamos segurar na mão das nossas companheiras na rua, nos bares, mas sempre passávamos por constrangimentos. Já nos anos 1990 essas articulações se fortaleceram e em 2000 já tínhamos organizações. Atualmente, a questão de nós lésbicas está colocada na pauta e não sai mais”, afirma Silvani, reforçando a importância da data.