Construindo redes de apoio entre mulheres LBT

Qual a maneira de fomentar o nosso mercado e como driblar os desafios do dia a dia?

Por Jamine Miranda

“Apoie o produtor local!”. Quantas vezes você já escutou essa expressão nos últimos tempos? Quantas vezes você apoiou sua rede local? Quantas vezes você optou por comprar algo produzido por mulheres LBT? E por mulheres LBT negras?

Vivemos em tempos que todas as nossas certezas caíram por terra. O emprego que te garantiu o sustento por tantos anos não existe mais e o negócio que era um sonho e que você batalhou tanto para conquistar corre o risco de fechar as portas. 

Por mais difícil que seja, isso não nos impede de pensar em soluções criativas, independentes e conscientes. O Movimento Black Money vem ganhando força no Brasil. Fundado em 2017 e liderado por Nina Silva,  o HUB de Inovação Negro fomenta a circulação de dinheiro entre a comunidade preta no Brasil. Segundo dados apurados pelo movimento, a população negra no Brasil representa 54% e movimenta cerca de 1,7 trilhão de reais por ano. Porém esta mesma população recebe em média  R$ 1,2 mil a menos no mercado de trabalho, além de corresponder a 75% da faixa dos 10% mais pobres em território nacional.

Apesar do expressivo montante que a população negra produz a nível mundial, o dinheiro circula por pouco tempo dentro da comunidade. Consome-se pouco produtos de pretos para pretos. Utilizando o cenário dos Estados Unidos e baseando-se nos dados coletados pelo OneUnited (o maior banco de propriedade de negros e o primeiro banco online negro dos EUA), o dinheiro demora 28 dias para sair da comunidade asiática, 19 dias entre os judeus, 7 dias entre os hispânicos e apenas 6 horas na comunidade negra. Ou seja, o dinheiro continua circulando durante muito tempo dentro de algumas comunidades em detrimentos de outras. 

E se pensarmos na realidade brasileira vemos que sequer temos dados oficiais que dêem conta desses números. No meio lésbico, então, temos um abismo ainda maior de dados sobre como movimentamos o nosso dinheiro.  E este “silêncio” não acontece por acaso. Infelizmente, existe um imaginário que nos coloca de forma homogênea e compreende muita vezes que o meio LGBTQIA+ tem vivências parecidas. 

Como identificar?

Investir nosso dinheiro no trabalho de mulheres LBT é importantíssimo, principalmente, pela necessidade de fomentar mais o nosso mercado. Um fato que devemos sempre nos atentar são as empresas que se utilizam de datas representativas, como o mês da Visibilidade Lésbica ou do Orgulho LGBTQIA+ para conquistar o nosso suado dinheiro. O melhor conselho que posso dar sobre essas empresas é: CORRA! Opte sempre por trabalhos feitos de mulheres para mulheres.

Um ótimo exemplo dessa efetiva rede de apoio é o grupo “Juntas Geramos Renda”, criado em 2016 e se define como “um grupo feminista feito por mulheres para mulheres, trans e pessoas não-binárias de Belo Horizonte e região, com o objetivo de gerarmos renda entre nós”.

O grupo conta com um número expressivo de participantes, uma oferta considerável de mão de obra qualificada e, principalmente, transforma a oferta de serviços mais segura por se tratar de uma relação entre mulheres, sendo proibido a indicação de serviços para homens. O mesmo movimento acontece entre pessoas pretas e cada vez ganha mais espaço na comunidade LBT.

Por que?

Infelizmente, mulheres LBT ainda enfrentam muito preconceito para se inserir e se manter no mercado de trabalho. A busca pelo negócio próprio torna-se uma realidade cada vez mais crescente e necessária numa sociedade que rejeita tanto o que somos. Consumir o produto, conteúdo e perfis de mulheres LBT é também um ato político, é preocuparmos com a existência das nossas e fazer o dinheiro circular entre a gente. 

 

PERFIL

Lívia Ferreira (@afrocaminhao) – Escritora, autora das obras “colisão das galáxias” e “No Olhar do invisível”, onde cria novas narrativas sobre afeto lesbico entre sapatonas pretas e caminhoneiras.

 

 

 

LOJA

NOT YOUR BABE (@notyourbabe.store)

Desenvolvida em 2016 pela Gabi com o intuito de criar estampas maneiras que ela não via por aí, a marca Not Your Babe busca trabalhar sempre com pequenos fornecedores e dar preferência para mulheres.