Revista Lésbi

Para mulheres que se relacionam com mulheres

Carta à leitora

Oito e meia da noite: meus vizinhos batem panela. Não entendo bem o que estão gritando. Vocês entendem? Está tudo confuso aqui do meu sofá. Minhas gatas me olham distantes – será que sacaram o isolamento social? Será que também sentem medo? Será que não suportam minha presença vinte e quatro horas neste espaço? Que pancada. Estou perdendo a referência do tempo. Que dia é hoje? Quantas horas se passaram desde que começamos a conversar? 

Estou tentando me entender com o tempo. Há poucos dias entrávamos em quarentena e também completávamos dois anos sem Marielle Franco. Parece mais. Por que ninguém nos responde? Nos escondem dados oficiais – quantas pessoas perdemos? Nos escondem nomes – quem mandou matar? Nos escondem nossos direitos – como sobreviveremos? 

Sinto uma vontade enorme de dar de maluca. Olhar nos olhos das pessoas. Saber por que ninguém nos responde. Quem sabe abraçar a vida – já pensou nisso? Nesse instante, a Lésbi me traz uma nova percepção dos dias. Detalhes que vou buscando em cada texto, novidades que me chegam aos olhos como se nunca. E nunca mesmo eu pensei que teria coragem para destrinchar o silêncio e transformá-lo em muitas vozes. Agora sei, estou inteira nessa revista: mente, corpo e espírito. 

A Lésbi chegou pelo caminho feito por mim e por muitas mulheres que estão ao meu lado. Chegou também pelas que não estão cara a cara, mas pelas telas. Chegou pela intuição que me gritou de madrugada: não abandone aquele projeto. Chegou por cada uma que está aqui comigo. A Lésbi é a força e a potência que só mulheres que se relacionam com mulheres têm. E ela fica pela nossa existência e porque não vamos mais nos contentar com o silêncio.

 

Ana Luiza Gonçalves

Editora