Entre Mundos

Por Bianca Rêgo Monteiro

Ter um corpo fora do padrão cishetero é perceber e ser percebida pelo mundo dos cisheteros de um jeito diferente.

Falam que vou contra as leis da natureza.

Fujo desse mundo dos cishéteros e encontro outros. O não-hétero e o não-cis. São um pouco escondidos, mas no fundo todo mundo sabe que estão lá.

No mundo dos não-cis, me deparo com uma fortaleza hétero que simplesmente não consigo adentrar – por mais que eu tenha tentado o meu máximo, a tal da heterossexualidade compulsória.

Parece que o único jeito “correto”; de ser mulher é sendo, também, hétero. Pois então não sou mulher, sou lésbica, já dizia Monique Wittig.

Vou em busca das minhas irmãs de gênero-lésbico, ao mundo não-hétero.

Um oásis sáfico para uma alma cansada.

Finalmente encontro pessoas com quem me identifico, divido experiências de vida, mesmo que com suas pequenas diferenças – normal, não somos as mesmas pessoas.

Há uma minoria – barulhenta – que reclama da minha presença. Usam os mesmos argumentos que eu já havia cansado de ouvir do mundo hétero.

Que foram usadas também contra elas, mas parece que esqueceram.

Melhor as ignorar. Não me atingem, são poucas.

Saio com minha namorada, ao mundo dos cishétero.

Um rimador se aproxima nos trazendo ansiedade em forma de melodias.

Na sua mente, o que nós somos não é uma possibilidade, então como ele irá nos declarar?

Sou “um rapaz cabeludo” com sua “esposa”? Somos mulheres lindas passeando como “amigas”?

De todo modo, não podemos ser lésbicas, nem sáficas. Jamais. O patriarcado não permite.

Voltamos ao mundo sáfico, as barulhentas estão falando mais alto, agora.

Acusam minha namorada de ser hétero, por simplesmente estar comigo.

Seguimos não podendo ser lésbicas?

Não são as barulhentas que decidem isso. Nem os cishéteros. Somos nós.

Duas mulheres se amando segue sendo um problema para eles, mas não para nós.

Somos lésbicas, e não é ninguém que nos vai impedir.

 

Bianca Rêgo Monteiro

Comunicóloga, Escritora e Professora de Inglês, Bianca Rêgo Monteiro é uma lésbica trans
nascida campineira e criada recifense.