houve dia em que me veio Audre Lorde…

houve dia em que me veio Audre Lorde. o medo que me faz carregar tanto silêncio não vai me livrar de sofrer. mesmo calada o lance todo vem no tal do não-dito. e rodeia farejando cada nuance mesmo quando não te dou a mão ao entrar na escola.

era uma reunião em que as pessoas podem falar de suas vidas brancas héteras: piscinas nas casas ricas, pessoas trabalhando pra que seus esmaltes não descasquem. bom vinho à noite com maridos, jóias e cremes antirrugas. de prazer nisso sinto é nada: cadê minha existência nessas cenas de invisibilidades tamanhas? nunca casal de duas mulheres. onde estão as crianças que têm duas mães, dois pais, uma mãe, duas mães e um pai, uma mãe e uma vó, ninguém no mundo? a página da revista de moda de vocês nunca chega nessas paradas, né? se acham tão descoladas e simpáticas, mas empurram pra debaixo do tapete os pelos imaginários que queriam arrancar dos meus sovacos pra não se sentirem meio à “sujeira” que dizem enxergar em mim. não querem ver o que nem pensam: seus corpos são seus. E aí isso de refletir sobre si dá um baita trabalho. melhor deixar pra lá e continuar falando da estranha da professora com cabelo bem curto.

mas nesse dia, olhei pro meu rosto contraído de tanto retesar o que me amedrontava e deixei as águas de Oxum lavarem e levarem a dor de esconder quem sou e o amor tão intenso que sinto cotidianamente por uma mulher. rios caudalosos brotaram. a força das ancestrais irrompeu coragem pra desamarrar nós que impregnavam meu corpo há tempos. recordaram-me por que estou aqui. e, acompanhada das alumianças dessas guias, trilhei caminhos de botar no mundo corpo estranho onde moro: sou sapatona, moro com uma professora daqui. quero poder responder pras crianças: não tenho namorado. parem de saudar obstinado desejo de ignorância, ainda que enredado em “conhecimentos”. parem de nos calar, de nos matar. existimos, e não é de hoje. quando voltarmos pra escola sorrisos e mãos dadas vão contar do nosso amor. procurem saber.

 

dani caitano

caipiracicabana que ainda puxa o “r” em momentos de espontaneidade. criada por vó, envolta em natureza sensível e singela. tentando aos poucos colocar suas escritas no mundo, romper silêncios. psicóloga (às vezes até me esqueço) e professora com crianças. gosta de prosas, causos e miudezas. de carregar poesia dentro. sapatona convicta em constante indagação.