Maternidade homoafetiva: como vivê-la?

Elas queriam ser mães e não sabiam por onde começar. Hoje compartilham a maternagem de gêmeos e a trajetória se tornou livro

Por Roberta Nunes

 

Após quatro anos juntas, a gestora cultural Marcela Tiboni, 37, e a produtora Melanie Graille, 30, em uma noite fria de terça-feira, se questionaram sobre como saber quando era o momento certo para engravidar. O desejo de ter filhos iniciou um caminho repleto de questionamentos. Como duas mulheres engravidam? Qual das duas vai gestar? Doador anônimo ou não? É possível as duas amamentarem?

As geminianas se casaram em 2017 e pelo método de Fertilização In Vitro¹ (FIV) realizaram o sonho de ter filhos. Elas são mães de gêmeos – Iolanda e Bernardo – de 1 ano e 4 meses e dividem a maternagem. Mel gestou e a Marcela fez um tratamento hormonal para amamentar. A busca de informações, e a falta delas, durante o processo motivou Marcela a escrever o livro Mama: um relato de maternidade homoafetiva.

A revista Lésbi entrevistou Marcela, a autora do livro, que compartilha aqui como foi a busca do casal para viver a maternidade.

¹Processo de fertilização que ocorre em laboratório, no qual os óvulos são fertilizados fora do corpo pelos espermatozóides e depois transferidos desses embriões de volta para o útero.
No livro, você conta que antes queria engravidar. Como foi a decisão do papel de cada uma na gestação?

Marcela Tiboni – Tive um relacionamento de oito anos antes e fui construindo essa ideia de família, mas a coisa não ia. Eu queria engravidar, ela não. Quando eu conheci a Mel, tudo se encaixou. Melanie foi uma concretização daquilo que há anos eu queria viver e não dava passos. Antes, não tinha outra opção. Era eu, meu corpo, minha barriga e a autossuficiência. Mel  me permitiu escolher. Vi que ela tinha esse desejo e estava muito mais preparada que eu.

Por que optaram pelo método de Fertilização In Vitro (FIV)?

M – Para nós, a decisão da FIV foi rápida por ter a chance de ter um neném de cara e também devido à ovodoação². O lance do sêmen foi mais abstrato. Quando a gente começou o processo, a Mel queria um doador conhecido. A escolha de não ter uma figura paterna foi o xeque-mate para optarmos por um doador anônimo. Depois, na clínica, conhecemos o banco nacional e internacional e nos deparamos com todos os nossos preconceitos e piras. Na segunda consulta com a psicóloga, a gente tinha escolhido 10 tipos de sêmens. Foi ela quem nos ajudou a manter um pensamento racional e ir eliminando.

²Doação de óvulos para o banco onde se armazena esses gametas e dali é repassado a mulheres que estão a espera de engravidar.
Como funciona o protocolo para indução à produção de leite?

MÉ importante dizer que a consultora de amamentação, Kely Carvalho, falou muitas vezes que fazer o protocolo não garantia a produção de leite. Primeiro, eu passei por uma ginecologista que fez exames para avaliar qual era a melhor medicação. Eu tomei um anticoncepcional específico, parei de menstruar por dois meses e isso aumenta o número de progesterona e estrogênio. Depois parei o anticoncepcional e comecei a tomar um remédio que o efeito colateral é a prolactina. Eu fazia a bomba cinco vezes ao dia, bem cronometrado. Eu acho que o que mais fez diferença foi o uso da bomba. 

Qual a sua relação com a amamentação hoje?

MPra mim, desde o princípio, a amamentação tem uma coisa muito mais racional do que emocional. Não é sobre criar vínculos. Eu quero amamentar para livrar a barra da Melanie e poder dividir a maternidade ao meio. Se só a Mel tivesse amamentado, seria pesado. Acho também que a invisibilidade da minha maternidade não aconteceu por causa da amamentação. As pessoas me validam como mãe quando eu amamento. Isso me incomoda na militância, porque eu seria mãe independente de amamentar ou não.

Como foi para registrar os bebês?

M – Para registrar, de antemão, ligamos para o cartório para saber se fariam, porque eu não queria passar por esse estresse e fomos atrás do documento na clínica. A gente pediu pra nunca na vida saber quem era o doador, mas no documento estava escrito. E, ao chegar no cartório, a menina não tinha ideia de como registrar. Lidamos com muita gente que não sabe fazer e é cansativo porque temos sempre que saber. Por exemplo, quando o cara foi fazer o documento de nascido vivo no quarto do hospital perguntou: “nome da mãe?” Melanie.  “Nome do pai?” Não tem pai. “Ah, então é mãe solo”. Não, tem duas mães. “Como tem duas mães?” Sim, sou casada com uma mulher e tem duas mães. “Ixi, não cabe isso no meu papel”. Se eu não soubesse, eu sairia de lá sem o documento de nascido vivo.

O que te levou a dividir a sua história nas redes sociais?

MQuando a gente decidiu engravidar, era pura dúvida. Pra mim, ir para as redes sociais e falar o que a gente estava querendo viver era natural. Com o passar do tempo, as mídias sociais se transformaram em meu espaço para poder falar de maternagem e a maternidade ficou vinculada a Melanie. Nós vivemos numa bolha que facilita que comentários homofóbicos e machistas não cheguem, mas toda vez que sai matéria chove comentários com a necessidade de encontrar o homem na relação e a coisa da religião. Eu respondo a todos. Quando percebem que essa família tem rosto, tem fala e tem voz, rola empatia. 

Como tem sido  viver a maternagem com uma mulher?

MMel sempre fala que para ela, como mãe, foi muito importante viver esse processo ao lado de uma mulher, porque ela se sente compreendida por completo, desde medos e angústias até sensações físicas. Pra mim, é importante, obviamente. Para os outros, desde o princípio parece que nossa maternidade está vinculada à palavra coragem. Eu não acho. Não tem uma ousadia, é fluida e compartilhada, assim como toda maternagem deveria ser. 

Valores de procedimentos

De acordo com dados da Clínica Gerar Vida

Inseminação Artificial: R$ 4.000
Fertilização In Vitro: R$ 11.700
*medicação e sêmen não inclusos no valor

Sêmen

Banco da Clínica: R$ 2.500
Banco Nacional: R$ 4.000
Banco Internacional: R$ 5.000
*cada banco de sêmen cobra um valor por uma amostra de sêmen