Nós nunca saímos de cena

Quem eram as mulheres que estavam na linha de frente do movimento feminista lésbico no final da década de 1970 e lutavam a favor da visibilidade em plena ditadura militar?

Por Ana Luiza Gonçalves

Revisitar histórias de mulheres lésbicas no Brasil é como abraçar o tempo. Olhar para trás pede coragem e, por isso, é preciso ser gentil com quem somos e com o que construímos hoje, pois o passado vibra neste instante-agora no corpo de toda mulher que ama outra mulher e é preciso dar passagem para a emoção. Então, meu conselho é: permita sentir essa força que reverbera em nós. Ela vem lá de trás.

Para começar: ler sobre o contexto histórico do Brasil a partir dos anos de 1960 assusta por tamanha semelhança com o presente. É possível resumir o cenário político daquela época em breves palavras capazes de causar arrepios, mas dos ruins: ditadura militar, censura e A-I5. A homossexualidade era vista como pecado, vício e doença. Homossexuais eram considerados imorais, pervertidos e perigosos. Como já imaginamos – e sabemos: a ditadura defendia a família tradicional, patriarcal, heterossexual, branca e católica.

Militares associavam a homossexualidade à subversão, alegando a crescente visibilidade da afirmação homossexual a um “movimento comunista internacional.

Militares associavam a homossexualidade à subversão, alegando a crescente visibilidade da afirmação homossexual a um “movimento comunista internacional”. Se não fosse a mestre em História Social e defensora de Direitos Humanos Marisa Fernandes (foto), que vivenciou toda essa história, me contando isso, eu poderia jurar que ela falava do governo atual. Você também, eu aposto.

Mesmo com a ditadura, mulheres lésbicas resistiam. Segundo Marisa Fernandes, as pautas eram por visibilidade, contra o isolamento e a marginalidade, retirada da homossexualidade do código de doenças, contra a heteronormatividade, a violência, o preconceito, a discriminação, o machismo, o sexismo e o patriarcado. “Lutamos também pelo combate ao entendimento de que ser homossexual não era uma opção, pela luta por uma legislação inclusiva e antidiscriminatória, que legitimava as práticas repressivas e garantia a impunidade, e lutamos muito por uma visibilidade política dentro do movimento feminista”, conta.

Quem eram elas?

Vamos começar pela Cassandra Rios, que foi a escritora mais perseguida pela censura na ditadura militar. Ela teve 36 dos seus 50 livros publicados censurados. Cassandra foi da fama à falência: vendeu 1 milhão de livros, se sustentava apenas com a escrita, mas perdeu tudo o que tinha com a censura dos seus livros, em 1976. Voltou a escrever para jornais e revistas com pseudônimo masculino para garantir alguma renda. Detalhe: o conteúdo escrito era o mesmo e nunca foi censurado. Ou seja: a perseguição era por ela ser uma mulher lésbica.

Ali por volta de 1979, nasciam os primeiros coletivos feministas lésbicos. Ouvi muito sobre o Grupo SOMOS (Grupo de Afirmação Homossexual), Lésbicas Feministas (LF) e o GALF (Grupo de Ação Lésbico Feminista), mas nunca soube quem integrantes, além da Miriam Martinho e da Rosely Roth, o que faziam ou de onde vinham. Estou aqui para falar um pouco sobre elas, imaginar toda a trajetória de luta e militância, dar alguns nomes e deixar a imaginação fluir.

É importante ainda dizer que este é um texto que dá corpo e nome ao nosso movimento. Sei que há muitas outras mulheres fora do eixo Rio-São Paulo e também que há muitas outras histórias para contar.Em 1981, o GALF lançou a edição independente do sugestivo ChanaComChana, que alcançou todo o país. Quem concedeu uma entrevista para seis integrantes do coletivo para a publicação foi Angela Roro

Dentro do SOMOS, surgia o LF, que em 1980 se tornou autônomo. A grande líder era a Teca, acompanhada por Míriam Martinho Rodrigues, Wilma Maria Monteiro, Cristina Calixto, Fany, Ana Maria e quatro Marisas: Fernandes, Fiori, Samesatsu e Nunes. Além delas, ainda faziam parte do coletivo Conceição, Glória, Ednéia, Regina, Helena, Déa, Margareth, Sônia, Else, Darcy, Regina e Vicky. O ponto em comum? Apenas a lesbianidade. Era um grupo plural, de diferentes classes sociais, etnias e credos.

Em 1980, o LF se tornou GALF, Grupo de Ação Lésbica Feminista, agora tudo no feminino. Quem nunca ouviu e cantou “Calada noite preta, noite preta”? – eu nem idade tinha, mas já lembro de cara da novela Vamp. Sim, Vange Leonel (foto) atuou no GALF. A cantora tinha apenas 17 anos e a partir do coletivo iniciou sua trajetória de militância pela visibilidade lésbica.

Em 1981, o GALF lançou a edição independente do sugestivo ChanaComChana, que alcançou todo o país. Quem concedeu uma entrevista para seis integrantes do coletivo para a publicação foi Angela Roro (foto) – E quem não gostaria de conversar com ela, não é? A cantora também foi vítima da ditadura por se assumir lésbica: ficou cega de um olho, perdeu metade da audição e foi espancada quatro vezes pela polícia.

E se eu disser que a atriz Zilda Cardoso, que interpretava Dona Catifunda, na Escolinha do Professor Raimundo, também era sapatão? Pois era! A humorista estava sempre no Ferro’s Bar, bem sapatona, como me contou Marisa, depois das gravações para TV Excelsior. E por falar em Ferro’s Bar, a ocupação que aconteceu foi articulada por Rosely Roth FOTO, que também pertencia ao GALF. Junto a ela, estavam Célia Miliauskas, Luiza Granado e Vânia Frias.

Não podemos passar pela história lésbica do Brasil sem falar de Leci Brandão (foto). Importante nome da música brasileira, Leci compôs canções, abordando relações homoafetivas. A cantora e compositora foi entrevistada pelo jornal Lampião da Esquina, em 1978, onde falou abertamente sobre sua homossexualidade.

Durante a conversa, Marisa Fernandes também relembrou da atriz Norma Bengel, que interpretou a lésbica Deise, no seriado Toma Lá, Dá Cá, da Rede Globo. “Norma foi questionada pelo Lampião da Esquina sobre divulgar sua sexualidade e/ou lutar pela defesa de lésbicas e gays, e respondeu: mas eu já estou fazendo alguma coisa, estou dando esta entrevista a vocês”, conta.

Do orgulho à visibilidade

Depois do levante no Ferro’s Bar, muitos coletivos surgiram e continuaram atuando fortemente pelas nossas pautas. O GALF se manteve ativo até 1987, e em seguida vieraA Rede Informação Um Outro Olhar e o Coletivo de Feministas Lésbicas (CFL), ambos de 1990 e de São Paulo. O Deusa Terra, também de São Paulo, foi fundado em 1991 por Célia Miliauskas. No Rio, Yone Lindgren fundou o Movimento D’Ellas, em 1993.

16 anos se passaram do dia em que Rosely Roth promoveu o ato de invasão do Ferro’s Bar até a realização do primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), no dia 29 de agosto de 1996. Falar sobre o Senale é relembrar as mulheres que organizaram o evento e de toda a potência do encontro.

É importante ainda dizer que este é um texto que dá corpo e nome ao nosso movimento. Sei que há muitas outras mulheres fora do eixo Rio-São Paulo e também que há muitas outras histórias para contar.

Na linha de frente, no Rio de Janeiro, estavam Neusa Pereira das Dores e Elizabeth Calvet, fundadoras do primeiro grupo de lésbicas negras em 1985, o COLERJ, que também editava o Boletim Visibilidade. Com elas, Rosângela Castro, que atuava no LF em São Paulo, e fundou, no Rio, o Grupo Felipa de Souza, que também produzia folhetos de prevenção das ISTs para lésbicas.

Na Bahia, onde aconteceu o II SENALE, Jane Pantel e Zora Yonara, fundadoras do Grupo Lésbico da Bahia, que publicava o boletim Ponto G. Em BH, no III SENALE, Soraya Menezes (foto), fundadora da ALEM (Associação Lésbica de Minas Gerais) e realizadora da I Parada LGBT da cidade. O IV evento, foi realizado por Alice de Oliveira, que também pertenceu ao LF e fundou o Grupo Terra Maria, em São Paulo.

A gente pula para os anos 2000 e dá de cara com Valéria Melkin Busin, importante nome da organização das primeiras caminhadas lésbicas de SP e integrante do grupo Umas & Outras, e também Márcia Cabral, fundadora do primeiro grupo de lésbicas negras de São Paulo, o Minas Cor, responsável pelo I Seminário Nacional de Lésbicas Negras, em 2006.

É importante ainda dizer que este é um texto que dá corpo e nome ao nosso movimento. Sei que há muitas outras mulheres fora do eixo Rio-São Paulo e também que há muitas outras histórias para contar. Quantas vezes parei a escrita pensando sobre a vida dessas mulheres. As que vivem, marcadas aqui de azul: onde estão hoje? O que fazem? Estão cansadas? As que já fizeram a passagem, agradeço muito e desejo, sobretudo, um bom descanso.

Nota de agradecimento: Este texto não aconteceria sem a colaboração de Marisa Fernandes, Co-fundadora do Grupo SOMOS, de São Paulo em 1979, e do Grupo LF – Lésbico Feminista, no mesmo ano. Integra desde 1990 o Coletivo CFL – Coletivo de Feministas Lésbicas.