O amor como possibilidade de emancipação

Das relações de poder às escolhas individuais: qual o melhor formato de relação para mim?

Por Isabela Alves

Xuxu Rocha, DJ e idealizadora do @quentinhasdaxuxu

“O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”: o hit é dos anos 1990, mas o dilema é bem atual. Hoje dispomos de inúmeros formatos, possibilidades de relação e, consequentemente, de muitas escolhas. Se por um lado esses arranjos nos permitem desenvolver um senso de autonomia e empoderamento, por outro eles podem ofuscar a ideia de que somos seres relacionais e de que nos constituímos justamente no encontro com a outra. Como permitir que eu me transforme a partir desses encontros, sem que eu me afaste daquilo que valorizo?

Não podemos falar de relacionamentos amorosos sem antes olhar para a monogamia, não simplesmente como um formato de relação, mas enquanto estrutura de poder, isto é, algo visto como “natural” em nossa sociedade. A monogamia surgiu em um contexto de dominação, na intenção de que homens brancos pudessem controlar a sexualidade de mulheres brancas, para garantir a legitimidade de sua paternidade. Em outras palavras, é o entendimento histórico de nossos corpos enquanto posse de outrem. Portanto, não irei me referir a relacionamentos como monogâmicos neste texto, mas, sim, como exclusivos.

Para me ajudar neste debate, convidei Xuxu Rocha, DJ e microempreendedora na cidade de Uberlândia, Minas Gerais, que criou o @quentinhasdaxuxu para a venda de marmitas feitas por ela. Nós falamos um pouco sobre relações abertas, o que nos leva a construir determinados formatos relacionais, os atravessamentos de relações de poder em nosso modo de viver e também sobre ciúme e traição.

Como permitir que eu me transforme a partir desses encontros, sem que eu me afaste daquilo que valorizo?

Xuxu conta que, em seu primeiro namoro, sequer pensava na possibilidade de ficar com outras pessoas até um tempo depois do término, quando começou a se envolver novamente e sua companheira propôs uma relação aberta. Ela topou e descobriu que aquele poderia ser um formato de relação bem gostoso. Xuxu ressalta que “tem que ter muita conversa para uma coisinha boba não acabar com uma coisa tão grande”, e conta que ela e a parceira acordavam tudo: não podiam trocar telefone com quem beijassem e nem fazê-lo se as duas estivessem no mesmo lugar. Quanto ao sexo, só poderia acontecer se conversassem antes sobre.

A possibilidade de desejar outro alguém, segundo ela, também existe nos dois formatos: “Porque se não, não existiria traição

A escolha sobre como cada relação amorosa será construída vai depender, para Xuxu, de como ela está consigo e de quem vai estar com ela. Seus três últimos relacionamentos foram abertos, mas agora começou uma relação em que não sente desejo em ficar com outras pessoas. Segundo ela, sua lesbianidade, sua cor e seu corpo pouco importam quando vai escolher como irá se relacionar com sua parceira. Entretanto, relata que desde que se descobriu mulher preta, tem refletido sobre as pessoas com quem se relaciona. Xuxu afirma que há diferenças entre namorar uma mulher preta e uma branca. “Eu não vou conversar com uma mina branca sobre meu cabelo. Com uma mina preta, você se sente mais acolhida dentro de um relacionamento, sabe? É alguém que literalmente tem a sua pele, está na sua pele”.

Falamos também sobre ciúmes e traições. “Ciúme é uma coisa que eu sinto, mas não queria sentir”, Xuxu confessa. Quanto à traição, ela afirma que independe da configuração da relação e que acontece sempre que os acordos feitos pelo casal não são respeitados. A possibilidade de desejar outro alguém, segundo ela, também existe nos dois formatos: “Porque se não, não existiria traição [em relacionamentos exclusivos]”, diz.

Entra aqui talvez a grande questão: se não há garantias de segurança em nossas relações, o que as sustenta? Xuxu aponta a confiança uma na outra como pilar principal, e eu acrescentaria uma – generosa – pitada de autoconhecimento: é preciso conhecer o que movimenta nosso desejo, aquilo que nos faz querer ficar ou partir. Se somos seres sociais e o que desejamos é sempre atravessado pelas estruturas de poder que nos organizam, sempre cabe a pergunta: essa é a melhor relação para mim ou estou apenas vivendo de acordo com os modelos, dentro do que é tido como melhor ou certo?

Colaboração: Camila Narduchi