O amor entre mulheres depois dos 60 anos

 

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Declarar a lesbianidade não é prioridade para elas, que vivem o encantamento de um amor há mais de 30 anos

Por Vanessa Perroni

Década de 1970, geração anterior aos movimentos LGBT’s e a descoberta de um amor que rompeu barreiras. Foi no colégio, em uma troca de olhares que ficou congelada no tempo, que a jornalista Karla Viana, e a biblioteconomista Rosângela Maciel, ambas com 65 anos, se apaixonaram. O frescor do início permanece até hoje em um casamento de mais de três décadas. Um encantamento que enfrentou tabus, mas que agora está plenamente instalado. Hoje, elas desfrutam de uma relação sólida, vivida na terceira idade. 

Qual idade vocês tinham quando se descobriram lésbicas? Como foi viver isso?

K– Essa descoberta foi aos 13 anos. Foi perturbador como toda manifestação de sexualidade. Pensar que o que me atraía era alguém do mesmo sexo, claro, foi muito estranho. Com quem falar? Como saber se era uma coisa normal ou se era só eu que sentia isso? Deu pra tirar o sono porque mexia muito interiormente. Adolescência, né?!

R– Quando me apaixonei pela Karla o sexo não estava presente e, sim, o encantamento. E depois namoramos, e com o passar do tempo nos beijamos, nos abraçamos e sentíamos uma energia boa que pedia mais. Eu tinha 17 anos de idade. Namorávamos no atelier que ela tinha na casa dela, ouvindo Bethânia, Gal, Chico, Gil, Elis, Tom Jobim…

Como as lésbicas eram vistas pela sociedade? 

K – Eu nem pensava nisso. Esse assunto era tabu. Não podia nem ser cogitado. E mesmo depois de saber que isso existia e de algumas paixões platônicas e juvenis, a coisa era bem difícil. Segredo total, guardar e resguardar ao máximo. 

 R – Não sei lhe dizer, pois eu não estava preocupada se era eu lésbica ou não. A minha sintonia estava em viver o encantamento de uma relação amorosa.

Quais lugares vocês frequentavam para encontrar pessoas LGBT? Quais programas vocês faziam para estarem juntas?

R – Somente nos encontrávamos na escola e para ficarmos mais tempo juntas, nós íamos do Colégio, que era na Serra, em Belo Horizonte, até o Centro da cidade a pé e aí cada uma pegava o ônibus para ir para casa. Nos despedíamos com um abraço e um beijo no rosto. O máximo que fazíamos, quando não dava para ir a pé até o Centro, era pegar um ônibus e sentar no último banco, para ficarmos de mãos dadas sem que ninguém pudesse perceber que estávamos namorando.

O que vocês sentiam por serem lésbicas?

K – A gente levava a coisa normal entre a gente. Mas havia um medo da família, dos pais e dos outros saberem o que estávamos sentindo e fazendo. A carga de repressão não ia ser pouca. Vivia isso meio perturbada, apesar de sonhar e imaginar ficar juntas.

R – Eu não sabia o que era lesbianidade. Eu só sabia que tinha ficado encantada com uma mulher e que era algo não aceito pela sociedade.  Me sentia livre, porque estava bem comigo mesma, mas tinha receios.

Quais diferenças vocês percebem entre se assumir na década de 1970 e nos dias de hoje?

K – Nem saberia dimensionar. Claro que aos poucos fui me esclarecendo e vendo que isso é normal. Tive a sorte de ter um pai super esclarecido e irmãos abertos e gays que me ajudaram também. Minha mãe quase morreu. A sociedade não aceitava e não aceita tanto quanto a gente pensa. Basta ver algumas reações, tanto no que se refere a LGBTs quanto a outras coisas, como a questão do aborto no caso da menininha violentada dos 6 aos 10 anos e cruelmente julgada por tirar o feto, coisa mais do que de direito e necessária. 

R – Entendo que antes e mesmo hoje, uma imensa parcela da sociedade desconhece o que é respeito ao outro. Considero o movimento LGBT+ uma luta importante pelo Direito à Liberdade de Ser.

Rosângela, você teve uma relação heterossexual e é mãe. Como foi contar para sua família sobre seu relacionamento com a Karla?

R – Me casei, porque desejei ser mãe. Na minha família não podia ter filhos sem casar e então me casei. Fiquei casada até meu filho completar seis anos. Um casamento triste e desolador. O primeiro a saber que ia me separar foi o pai do meu filho, fui clara em dizer que não dava mais para viver uma relação sem amor e respeito. E comuniquei à minha família a separação. Minha mãe não concordou e eu respeitei a posição dela. Mas sempre fui senhora de mim: as minhas escolhas são minhas.
E Karla, novamente, aconteceu na minha vida. Um novo encontro, descobertas, renascer, um novo viver. Sofri retaliações por parte de minha família. Não foi fácil viver esta tristeza e o afastamento. Somente um dos meus cinco irmãos e sua companheira não foram contra e deram todo o apoio, a mim e a Karla. E seguimos juntas com coragem, firmeza, equilíbrio e amor, superando as vicissitudes da vida. E a vida nos ensinou e ensina até hoje que a amizade, o respeito, a união e, principalmente, o crescer na relação a dois é amar. 

Vocês acham que expressar a sexualidade hoje está mais tranquilo ou vocês ainda sentem medo da violência?

K – Até pouco tempo atrás estava mais tranquilo, havia uma liberdade gostosa. Nunca sentimos vontade de dizer, expressar ou mostrar que somos um casal lésbico. Nos basta saber que a família e amigos aceitam isso tranquilamente. Hoje, a Rosângela fala para muita gente que temos 36 anos de casada (falava mais antes do golpe e da pandemia). Sinto que houve uma regressão muito grande. Já não sinto a liberdade que existia antes. Fico muito preocupada quando vejo duas meninas ou meninos de mãos dadas, se beijando na rua. Temo muito por eles. Mas ao mesmo tempo: VIVA O AMOR! 

Como é viver a lesbianidade na velhice?

K – Vai-se inevitavelmente envelhecendo como todo mundo. Menopausa, menos hormônios, dores para todo lado, doenças indesejáveis, mas aquela chama está lá. O sexo é menos frequente, mas quando acontece é de uma força e de uma qualidade indizível. Força no sentido de intensidade. E quando não acontece, acontece de outros jeitos. Tesão são muitas coisas. Mas o que conta é o amor que transborda de nós e vai para o mundo. É como disse o Leminski: “isso da gente ser o que é ainda vai nos levar longe”. 

O que conta é o amor que transborda de nós e vai para o mundo. É como disse o Leminski: “isso da gente ser o que é ainda vai nos levar longe.