O caminho certo é o que te faz bem

A importância de cuidar da saúde e a barreira encontrada com profissionais incapacitados e poucas informações acessíveis

Por Isabela Alves

Escrever sobre um tema historicamente invisível não é tarefa fácil. A vontade é colocar em pauta todas as dúvidas que temos. Antes de iniciar esta conversa, gostaria de localizar as leitoras que falarei sobre mulheres que se relacionam afetiva e/ou sexualmente com outras mulheres. Seja qual for sua identificação, há algo que nos une: a necessidade de informações sobre nossa saúde mental e sexual e a quantidade de profissionais que desconhecem a temática.

Se tem troca de fluido, tem troca do que quer que exista ali, desde a lubrificação gostosa a alguma infecção.

Uma das questões mais discutidas na área da saúde envolve práticas sexuais entre mulheres. Ainda que seja compreensível e importante o debate identitário sobre o assunto, falarei aqui sobre o sexo entre vulvas, compreendendo que não precisamos nos identificar como mulheres lésbicas ou bissexuais para termos demandas relacionadas ao assunto. 

Já sabemos que as vulvas foram e ainda são invisibilizadas. O debate para resgatar o clitóris em sua função primordial ainda vem sendo construído. Por isso, para falar de saúde sexual, existem dois temas principais: prazer e proteção. Há uma discussão crescente sobre os riscos aos quais mulheres que se relacionam sexualmente com outras mulheres estão expostas e por desconhecimento ficam vivendo sob uma atmosfera de medo. Em situações assim, a conversa é sempre a melhor saída. 

É importante lembrar que se tem troca de fluido, tem troca do que quer que exista ali, desde a lubrificação gostosa a alguma infecção, como hepatite, vírus do papiloma humano (HPV)¹ e herpes genital. Quanto ao HIV², a prevalência no sexo entre vulvas é baixa, mas as chances de transmissão aumentam quando há contato com o sangue. Por isso, é sempre válido conversar com sua parceira sexual sobre os exames recentemente feitos e se há algum cuidado necessário para tomar.

¹A vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas entre 9 e 14 anos. Na rede particular, as três doses saem a R$ 1000, aproximadamente.

²Uma pesquisa realizada pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), em 2017, com 150 mulheres que se relacionam mulheres  mostrou que as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) foram constatadas em 71 mulheres (47,3%), tendo a contaminação de HPV em 45,3%, de clamídia 2,0% e de HIV/aids 0,7% nas mulheres investigadas. Tricomoníase e sífilis foram detectadas em 1,3%. 101 mulheres não se percebiam em risco para a infecção pelo HIV, destas, a maior parte confiava na parceira (51,5%) e 19,9% preferia se cuidar.

Outros cuidados

As demandas não vêm apenas de práticas sexuais. A saúde mental é outro ponto importante na hora do cuidado. Mesmo com diversos debates acontecendo, ainda há profissionais que insistem em práticas de “cura”. Por isso, é preciso atenção redobrada na hora de escolher sua/seu psicóloga/o³.

A psicoterapia não é um lugar para buscar a “causa” ou de onde veio sua sexualidade – ninguém pergunta de onde veio a heterossexualidade, não é? – também não é um espaço para rotular homossexuais/bissexuais como promíscuos ou qualquer outro estigma em torno destas identidades. A sexualidade é fluida e está tudo bem experimentá-la e partilhar suas dúvidas e experiências com sua/seu psicoterapeuta. Caso não se sinta à vontade em conversar sobre determinados assuntos está na hora de prestar atenção nos motivos. Perguntar aos seus conhecidos sobre psicoterapeutas que tenham gostado pode ser um bom caminho. Não há receita para uma boa psicoterapia, mas é imprescindível se sentir acolhida por esta/e profissional exatamente por ser quem você é.

Uma rede de apoio também é essencial para cuidar de questões da saúde, seja para dar suporte em caso de alguma tensão em casa por conta da sexualidade, seja para simplesmente trocar informações. Pessoas em sua volta podem trazer ótimas referências a partir de conversas sobre vivências e dúvidas, que vão desde o que fazer com aquela candidíase chata que não sara até dividir dicas para chegar na menina que a gente tá a fim e não sabe como. 

Saúde não é só ir ao médico ou à psicóloga. É descobrir do que e de quem gostamos e qual o melhor jeito ou o jeito possível de se cuidar. 

Ilustração: @lalalalalalari