O esporte tem tudo para ser um lugar seguro

Atletas lésbicas e especialista contam como é fazer parte de grandes equipes esportivas e apontam caminhos para que o ambiente seja confiável e inclusivo

Por Ana Luiza Gonçalves

Eu fui atleta. Joguei vôlei dos 8 aos 15 anos no Mackenzie Esporte Clube, em Belo Horizonte. Treinava três horas por dia, de segunda a sexta-feira. Passava a tarde e parte da noite no clube: sempre era mais do que só a quadra e a bola. Os jogos dos campeonatos eram ou durante a semana ou nos fins de semana e conheci algumas cidades do interior por conta do esporte.

A rotina era intensa. Fiz amizades que até hoje se mantêm presentes. Estávamos sempre em grupos e compartilhávamos momentos importantes: a primeira menstruação, o primeiro beijo, o primeiro namoradinho. Não tenho na memória conversas sobre orientação sexual e talvez por isso também a minha dificuldade na construção da minha identidade lésbica. Lembro de ser chamada de sapatão algumas vezes e de ter medo de ser parecida com homem por causa do corpo e das roupas que eu vestia. Não há como falar de mim sem falar do esporte e da adolescência vivida em silêncio e com estranheza.

Uma forma de medir a LGBTfobia é determinar quantas atletas optaram por ficar fechadas e quantas se sentem confortáveis em falar para a equipe, treinadores e dirigentes sobre sua orientação sexual

A psicóloga do esporte Letícia Capuruço (foto), que trabalha com atletas desde a base até o alto rendimento, com grande demanda de adolescentes entre 13 e 17 anos, conta que os ambientes esportivos são abertamente preconceituosos e pessoas LGBTQIA+ enfrentam estereótipos negativos, intolerância e discriminação. “Uma forma de medir a LGBTfobia é determinar quantas atletas optaram por ficar fechadas e quantas se sentem confortáveis em falar para a equipe, treinadores e dirigentes sobre sua orientação sexual”, explica.

Na adolescência, a judoca Isabela Sanches (foto), que luta desde os 7 anos, defendeu o Minas Tênis Clube por dez anos e hoje, aos 24 anos, é contratada pela equipe de São José dos Campos, de São Paulo, era chamada de Maria Homem por gostar de coisas “de menino”. A descoberta da sexualidade foi complicada e solitária. “Me assumi aos 15 anos, mas antes as pessoas tentavam arrancar algo de mim com perguntas pejorativas e até afirmações. O ambiente sempre teve mais homens do que mulheres e havia, no máximo três mulheres lésbicas”, conta.

Segundo Letícia, muitas adolescentes a procuram para conversar sobre orientação sexual e sexualidade. Quando uma atleta não se encaixa nas categorias normativas de gênero, sua orientação sexual é questionada. A expectativa de que meninas sejam femininas e meninos masculinos é a base para muita discriminação e essa hostilidade pode variar desde comentários ofensivos, piadas, até agressões físicas. “Algumas atletas falam da angústia que sentem ao pensar em como a equipe pode não aceitá-las, junto ao temor em se assumir para a família e serem penalizadas, sendo obrigadas a deixar o esporte, uma vez que pais e mães ainda acreditam que o esporte pode ser o gatilho para que seja esta a orientação sexual da atleta”, comenta.

Identidades

Ao entrar para o esporte, uma nova identidade se forma: a de atleta. O medo de que a revelação da identidade lésbica arruíne a identidade atlética é grande. Mesmo com tantas discussões e debates acontecendo sobre orientação sexual e gênero em diversos espaços, ainda há treinadores e instituições que não querem que a imagem lésbica seja associada à equipe. Junto a isso, elas ainda sentem medo de frustrar os fãs e perder patrocinadores.

Uma mudança significativa está acontecendo e o esporte pode ser um espaço poderoso para que a mudança e justiça social ocorram

Foi o caso da atleta Elite de Crossfit Mayara Faria (foto), que perdeu cinco patrocínios e chegou a ouvir que seu corpo era muito musculoso, fator que poderia afastar o público. Ainda houve um pedido para alongar os cabelos com aplique, além de outras sugestões para que ficasse mais feminina. “Eu sempre me escondi e evitei comentar da minha vida por medo de rejeição. Com o passar dos anos eu passei a não me preocupar com isso mais, mas me posicionar e ter apoio de marcas se tornou um grande desafio. Infelizmente, não tenho nenhum patrocínio que queira se associar a uma atleta lésbica”, lamenta.

Medidas para romper o preconceito

Mas como fazer do esporte um ambiente seguro e acolhedor para mulheres lésbicas e bissexuais? Letícia Capuruço aponta que uma maneira simples e importante é encorajar uma linguagem apropriada, excluindo frases do tipo “isso é tão gay” do vocabulário, eliminar reproduções heteronormativas e usar uma linguagem mais inclusiva nas políticas, memorandos e documentos do departamento do esporte. “A história do esporte nem sempre foi inclusiva e segura para atletas LGBTQIA+. Mas uma mudança significativa está acontecendo e o esporte pode ser um espaço poderoso para que a mudança e justiça social ocorram”, pondera.

Nos EUA, foi criado o Centro Nacional pelos Direitos das Lésbicas, o NCLR, com o intuito de romper de vez com as atitudes lesbofóbicas em esportes coletivos, profissionais e universitários. Outra questão apontada pela psicóloga é a representatividade em todos os níveis do esporte. No judô, é impossível não lembrar da Campeã Olímpica, Rafaela Silva. A judoca sofreu muito preconceito por ser lésbica, preta e periférica. Mas é só ela quem conhecemos. Por isso, é importante que modelos sejam promovidos para mostrar os benefícios da diversidade no esporte e para encorajar a participação de outras atletas LGBTQIA+. “O setor do esporte precisa enviar uma mensagem forte para que lésbicas e bissexuais se sintam confortáveis e também precisa ser claro e confiante para apoiar participantes para que elas tenham força de trabalho envolvida no esporte”, conta.

Ainda é preciso muita luta e mudanças para que o esporte se torne um espaço onde todas as pessoas se sintam confiantes, seguras e capazes de serem elas mesmas, exatamente como deve ser. Mayara sabe como é difícil passar por julgamentos, mas ressalta a necessidade de ser firme e manter o posicionamento. “Conversem com seus familiares e amigos sobre o assunto. Não vivam com medo de mostrar quem vocês são, nem de correr atrás dos seus direitos”, enfatiza. A judoca Isabela Sanches alerta sobre se permitir sentir todo esse processo de conhecimento pessoal e íntimo e cercar-se de pessoas que te apoiam. “Procure construir uma rede de apoio para ter orientação e alicerce”, completa.