O Movimento de Mulheres Lésbicas e Bissexuais: 40 anos de história

Relembrar a trajetória de luta e militância feminista é reafirmar nossos direitos e conquistas

Por Isabela Alves

Colaboração em revisão: Camila Narduchi

Agosto é o nosso mês. Tempo  de falar sobre o orgulho em ser sapatão e de conhecer ou revisitar a nossa história. O movimento de mulheres lésbicas e bissexuais foi cheio de lutas, alianças, rompimentos e muitas – mas não tantas quanto gostaríamos – conquistas. Falamos de conquistas, pois não fosse a luta dessas mulheres quando não tínhamos sequer um movimento social organizado, eu não estaria aqui hoje contando esta história para vocês. É verdade, as queixas sobre a invisibilidade lésbica e bissexual e a necessidade por mais reconhecimento enquanto sujeitas políticas para o acesso aos direitos que toda cidadã pode e deve ter se mantêm atuais e pertinentes, mas se hoje algumas de nós podem bradar nosso orgulho aos quatro ventos, foi graças a muito chão percorrido por nossas antecessoras.

Se hoje algumas de nós podem bradar nosso orgulho aos quatro ventos, foi graças a muito chão percorrido por nossas antecessoras.

Há 40 anos, na década de 1980, começamos a nos organizar na busca por mais direitos e visibilidade. Iniciamos a luta ao lado de homens gays, no Grupo Somos (Grupo de Afirmação Homossexual), que também dava seus primeiros passos nos caminhos da militância, na cidade de São Paulo. Entretanto, o protagonismo dado às pautas gays, em detrimento das nossas, levou a um racha no coletivo que deu origem ao GALF: Grupo Ação Lésbica Feminista, a primeira organização exclusivamente lésbica do país. A proximidade com o movimento feminista foi uma aposta de que um grupo mais consolidado e composto por mulheres assegurasse maior visibilidade às nossas pautas.

associação dos dois movimentos foi preponderante para a conquista de alguns direitos ao longo da história lésbica e bissexual. Para saber um pouco mais sobre essa articulação, conversei com Neusa Cardoso de Melo, ativista em defesa dos nossos direitos desde o início dos anos de 1990. Neusinha teve um longo percurso dentro da Rede Feminista de Saúde (RFS), uma importante organização criada em 1991, responsável por avanços significativos referentes aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres no Brasil. Nós falamos um pouco sobre sua atuação dentro da Rede, sobre a inserção de mulheres lésbicas, bissexuais, negras e trans dentro do movimento feminista e sobre as mudanças do ativismo dos anos de 1980 até os dias atuais.

Neusinha entrou para a RFS em 1994 e logo assumiu a coordenação regional em Minas Gerais. Para além de suas funções na região, ela atuava também na representação nacional da Rede. Na época, o movimento feminista tinha como foco os debates sobre os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, bem como sua participação na política e no trabalho, e Neusinha se encarregava de reivindicar a presença de mulheres lésbicas dentro da RFS, com o intuito de visibilizar nossas demandas –  como o debate sobre a saúde da mulher que ultrapassasse meras questões reprodutivas ou a inserção de conversas em torno da transmissão de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no sexo entre mulheres com vulva.

Conquistas

Até os anos 2000, segundo a ativista, ainda não havia uma organização muito efetiva de mulheres lésbicas. Contávamos com algumas expoentes que levantavam a importância de nossa participação na agenda feminista, a exemplo de Sueli Carneiro, filósofa e ativista antirracista, que pautava a visibilidade de mulheres negras e lésbicas dentro do movimento. Foi a partir de um seminário, coordenado por Neusinha, chamado Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos: construindo diálogos e estratégias entre os movimentos por emancipação, no início dos anos 2000, que tivemos a incorporação de pautas mais plurais ao movimento feminista, incluindofinalmente, mulheres lésbicas, bissexuais, negras e trans.

Pontuar os avanços e retrocessos no ativismo até então também nos possibilita pensar quais caminhos devemos trilhar a partir de agora.

Neusinha faz um paralelo destes 40 anos e aponta para as mudanças da militância ao longo do tempo: se inicialmente a RFS agia independente de vínculos governamentais, com o avanço de governos de esquerda nos anos 2000, a militância feminista foi aliando seu ativismo às gestões eleitas. Neusinha acredita que, com o enfraquecimento da esquerda nos cargos de gestão municipais, estaduais e federais, os movimentos sociais também se desarticularam. “Para mim, a causa feminista, dos direitos humanos, está acima dos governos”, enfatiza.

São 40 anos de história do movimento lésbico e bissexual, 40 anos de busca por uma vida com mais direitos e menos medo. Em tempos de tamanho retrocesso no campo dos direitos humanos, relembrar e honrar nossa história é fundamental. Pontuar os avanços e retrocessos no ativismo até então também nos possibilita pensar quais caminhos devemos trilhar a partir de agora. E para você, leitora, quais são os desafios para o movimento lésbico e bissexual a partir de 2020?

VIDEO:  https://web.facebook.com/100000126469599/videos/1378705835476952/
CRÉDITO: Marina Garcia