Os desafios profissionais para lésbicas e bissexuais

Mulheres que não se enquadram nos padrões da heteronormatividade enfrentam obstáculos no mercado de trabalho

Por Camila França

Yasmin Melo: gerente do bar Yanã em Belo Horizonte
Yasmin Melo: gerente do bar Yanã em Belo Horizonte

Nas últimas décadas, vários avanços aconteceram em relação à participação da mulher no mercado de trabalho. No entanto, os desafios ainda continuam. A desigualdade salarial em relação aos homens e o baixo índice de mulheres ocupando cargos de liderança prevalecem. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a discriminação no mercado de trabalho ainda é grande. O estudo Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, realizado em 2018, mostra que as mulheres chegam a ter um rendimento médio salarial cerca de 78,8% a menos que os homens.

Quando se trata de mulheres que fogem da heteronormatividade, os obstáculos também são alarmantes. As mulheres lésbicas e bissexuais enfrentam barreiras diariamente para se inserirem no mercado e para permanecerem nele.

Mulheres trans estão sujeitas a um cenário ainda pior. Segundo Yasmin Melo, gerente do bar Yanã em Belo Horizonte, para mulheres trans e travestis as dificuldades são enormes. “A sociedade sempre nos deu como única opção trabalhar na rua para poder sobreviver. Essa situação está mudando, mas ainda em passos lentos. As oportunidades de trabalho formal para nós, mulheres trans, ainda são escassas”, conta.

Yasmin também reforça que os estereótipos estabelecidos às mulheres transsexuais contribuem para que os desafios no momento da contratação sejam ainda maiores, até mesmo para quem tem curso superior e experiência na área de atuação pretendida.

Obstáculos no caminho

Eliane Dias: assessora parlamentar, gestora pública e militante de direitos humanos
Eliane Dias: assessora parlamentar, gestora pública e militante de direitos humanos

De acordo com Eliane Dias, assessora parlamentar, gestora pública e militante de direitos humanos, o mercado de trabalho hoje ainda é regido pelo patriarcado. “Vivemos em um momento político que acaba refletindo nos pensamentos empresariais. O sistema é muito opressor e violento com as minorias”, destaca.

O reconhecimento da diversidade, da força e da beleza é de extrema importância. Se eu sou diferente, eu preciso ser atendida dentro dessa diferença.

Para Eliane, o machismo presente na sociedade contribui para que mulheres lésbicas e bissexuais enfrentem preconceitos na vida profissional. “As mulheres que não são tão femininas costumam ter mais dificuldades por não se encaixarem dentro do que é considerado padrão. No entanto, até mesmo as mulheres mais femininas são colocadas em um lugar onde costumam ser questionadas, levando algumas a esconderem a sua orientação sexual”, acrescenta.

A assessora parlamentar também ressalta que promover políticas públicas para assegurar os direitos da população LGBTQIA+ é primordial, além de um engajamento das empresas. “O reconhecimento da diversidade, da força e da beleza que ela tem, é de extrema importância. Se eu sou diferente, eu preciso ser atendida dentro dessa diferença”.

Mudando o cenário

Os desafios são inúmeros, mas ainda é possível encontrar soluções e tentar reverter o quadro. Algumas iniciativas contribuem para tornar esse caminho mais leve como a camaleao.co, uma startup que busca conectar as vagas das empresas com talentos LGBTQIA+.

Fundada em 2017 pela jornalista Maira Reis, a camaleão.co une empresas com quem busca oportunidades, fazendo assim um match entre os dois lados. “A ideia da camaleão.co surgiu quando percebi que estava recebendo muitos currículos de pessoas LGBTQIA+ via Linkedin. Hoje, o nosso trabalho é ser ponte e parceiros para as empresas e para a comunidade LGBTQIA+, diminuindo possíveis dificuldades de conexões”, explica Maíra.

Para a jornalista, uma forma de combater o preconceito no mercado de trabalho é entender as particularidades de cada um, com os seus desafios e lutas. “É preciso compreender que não ser hétero, não me faz uma pessoa melhor ou pior. As pessoas LGBTQIA+ têm mais dificuldade de entrar no mercado de trabalho e, muitas vezes, de permanecer nele por causa das suas invisibilidades. Quando a gente entende que não somos iguais e que importa sermos diferentes, a gente olha para o mercado e para as pessoas que estão procurando oportunidades profissionais de outro jeito, com mais empatia, inclusão e diversidade”.

 

Foto Eliane Dias: Mayara Laila