Sexo entre mulheres é sexo SIM!

O mito de que elas não transam vem aliado à invisibilidade e ao desconhecimento dentro de uma sociedade heteronormativa

Por Vanessa Perroni

A jornalista, Larissa Darc, escreveu um livro sobre a saúde da mulher lésbica e bissexual a partir do seu trabalho de conclusão de curso.

Relutei muito até ficar com a primeira mulher. Não queria “ser assim” por medo dos olhares alheios. Mas depois que rolou, não teve volta. Então veio a primeira relação sexual com uma mulher. Foi bom, mas para mim era como se não fosse sexo. Isso confundiu minha cabeça durante muito tempo. Será que eu era realmente lésbica? Depois de muita terapia, autoconhecimento e uma leitura da sociedade, me vi inteira na relação. Não faltava nada. E não falta mesmo! Porque sexo é muito mais do que penetração. É tudo que envolve a exploração do corpo alheio: a troca de olhares, o beijo, o toque, o gosto. Sexo é pele com pele. 

Essa ideia de que é um ato incompleto, uma brincadeira entre amigas ou que “não é de verdade”, tem início em uma educação sexual heteronormativa e focada na penetração do pênis em algum orifício (chamado falocentrismo), e, por isso, a relação entre mulheres¹ cai na invisibilidade. A jornalista, pesquisadora e autora do livro Vem Cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais, Larissa Darc, faz um paralelo. “Ninguém duvida de que o ato entre os homens gays seja sexo, mas da relação entre mulheres todos duvidam. Isso está enraizado na forma como fomos criados”. 

¹Nesta discussão, é importante frisar que se está falando de mulheres cisgênero e que uma mulher cis pode ter relações com uma mulher trans e ter outras preocupações.

O profissional tem que estar aberto para falar sobre todas configurações de relação.

Larissa é bissexual e conta que cresceu lendo revistas femininas. Todas diziam para a mulher caprichar nas preliminares. “Essa palavra se refere a tudo o que vem antes do sexo em si (penetração), dentro dessa conduta heteronormativa”, aponta. Atualmente, o que deve ser discutido e colocado sob a luz do esclarecimento é “que tudo o que fazemos é sexo. Falar em preliminar é um erro”, pontua.  A indústria pornográfica contribui para a manutenção desse pensamento. “O que vemos em sua maioria são duas amigas que começam a ‘brincar’, e um certo momento entra o homem ‘salvador’ no meio delas”, exemplifica a jornalista.  

Dentro desse contexto, se faz importante dar visibilidade ao tema e tentar ressignificar alguns pensamentos sobre a sexualidade das mulheres lésbicas e bissexuais. Um dos conceitos a ser entendido é: não falta um pênis! “Existe uma questão bem forte da sociedade sobre quem é ativa e quem é passiva. Isso no sexo hétero ou no sexo gay faz muito sentido, mas no lésbico não. Porque a nossa anatomia é diferente e nossas relações sexuais também”, sublinha Darc. 

A invisibilidade do sexo entre mulheres passa também pela questão da saúde. “Aos 16 anos enfrentei dificuldades para receber orientação ginecológica adequada. Na época, só havia transado com menina e o médico disse que não poderia me examinar porque eu era virgem. Isso me motivou a escrever o livro”, conta. Essa é uma situação recorrente entre mulheres lésbicas e bissexuais em consultórios ginecológicos. A falta de orientação para essas pacientes é uma realidade, e o despreparo dos profissionais da área também. “Essas mulheres se sentem muito julgadas pelos profissionais quando são atendidas”, comenta a ginecologista Amanda Ferreira.    

Ainda há pouca informação sobre prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis² (ISTs) entre mulheres e isso é um desafio para a medicina. “O assunto não é tratado durante o curso e ainda é considerado por muitos como ‘não sexo’”, afirma a especialista.  A informação e produção de materiais sobre o tema é uma das saídas para mudar esse quadro. “No geral, pouco se estuda sobre doenças em mulheres, ainda mais sobre particularidades do cuidado em mulheres lésbicas e bissexuais. Precisamos estudar mais e produzir artigos sobre o assunto”, pondera. O profissional tem que estar aberto para falar sobre todas configurações de relação. Uma solução a curto prazo? “Os médicos não presumirem que a paciente é uma mulher heterossexual”, sugere.

²Hoje em dia se usa a expressão Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) no lugar de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), porque a pessoa pode estar infectada, mas não manifestar a doença.

 

Foto Larissa Darc: Paloma Vasconcelos