Texto não-escolhido nº1

Carol Dia 

diários descontínuos
poesia que vai e vem se descobrindo dentro
memórias soltas que vão e voltam sonham rasgam florescem anunciam choram riem

começando então do instante agora com os pés na areia salgada
ver o sol sumir mais uma vez
e estar tão tão perto das águas mães
cantar aquela canção de ninar
em volta de si mesma
envolta nessa atmosfera terrestre total
que em gravidade ergue suspende cai
mantém-me firme
pés no chão
protege o ar que aqui respira e o ser que aqui vive 

re-começando então de antes com os pé na terra vermeia em barro
da cor dessa minha pele ao sol
e na sombra da árvore vendo os morro verde lá longe
matéria que re-liga nois em baixo e em cima
vida-morte-vida hoje e amanhã
estava ocupada pisando essa mesma terra respirando outros ares tocando o mundo que foi sendo negado perdido e sub.mersa em imagin.ações que do presente tempo corre quando se não quiser acordar quando se quiser despertar pra longe
lembrar quando aquelas antes de nois pisava aqui nessa mesma terra e respirava outro ar

voltando ao futuro agora pós-pôr-do-sol
a consciência na corpa minha
sentindo as canela duendo de dançar noite de ontem com lua escondida no céu
ri e rumar respirando pisando e re.lembrando essas voltas que o mundo vivido revira hoje dentro da cabeça 

—– 

pulei umas etapas
mas na real mesmo
o movimento do mundo natural
(ao qual pertencemos (para as mais desavisades ( no sentido de ser e de estar com esse nosso corpo no mundo ( no sentido contrário) de dentro de um conjunto menor menor menor bem pequeno dentro dele
esse movimento 

é ex pi ra lar 

a gente vaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaai 

e volta 

por onde eu deveria começar a não ser de mim ?

 

Carol Dia

Fogo que acendeu em terra baiana do Sertão da Ressaca e crescendo avuou pelo ar pra se encontrar água. Desde então venho sendo andarilha, performêra, poeta-escritora, artesã, consultora em escrita acadêmica, produtora cultural e, atualmente, aluna-pesquisadora no Mestrado do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade da UFBA (Universidade Federal da Bahia), com a pesquisa-performance “Subterrânea – Trilhando caminhos de escrevivência e ressignificação com mulheres marginalizadas por meio da performance arte”. Atualmente, integrando o NuCus – Núcleo de pesquisa e extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades da UFBA na linha de Lesbianidades, Interseccionalidades e Feminismos (LIF) e o programa de pesquisa e extensão AnDanças da UNILAB-Malês, sou pesquisadora contra colonial. Atuo ainda como produtora e artista colaboradora do Conquista Ruas: Festival de Artes Performativas e da (71) Interferências: Mostra Itinerante de performance e intervenção urbana, além de colaborar com a Plataforma ACASAS, a Coletiva Mina Tudo e outros projetos artísticos independentes. Venho me dedicando principalmente à andança e à escrita, investigando a palavra nas artes performativas. Trabalho com performance, intervenções urbanas e artes gráficas (zines e outros impressos independentes), interessando-me por  poéticas e políticas com mulheres marginalizadas e outras dissidências, memória, linguagem, trabalho, territórios, resistências e contra colonialidade.

Instagram: @estarsol Site: diasdecarol.wixsite.com/estarsolartevida